Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

partida

18 Oct 2009 | no comments »

tenho ido diariamente ao terraço para ver o crescimento da Amarílis. dá mesmo para ver ela crescer se ficarmos olhando fixamente. só não sei de onde sai tanta matéria, tanta força. olhar aquele caule todos os dias para mim é como tentar retesar o arco da promessa, pois sei que você estaria ali: olhando, com seus olhos bem abertos e mão na boca sem conter o espanto. aprendi com você a me emocionar com as pequenas coisas, aprendi que não são pequenas.
hoje as flores se abriram como um grito de choro. meus olhos ficaram esbugalhados e vermelhos. já era hora de sair mas não consegui, não quis. queria ter viajado mais com você, morado longe.

S2

17 Sep 2009 | no comments »

Meu bem, você tem que acreditar em mim. Ninguém pode destruir assim um grande amor.
Não dê ouvidos à maldade alheia e creia: sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo.
Use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só sem ter amor. Quantas vezes eu tentei falar, que no mundo não há mais lugar prá quem toma decisões na vida sem pensar.
Conte ao menos até três, se precisar conte outra vez, mas pense outra vez!
Sua incompreensão já é demais! Nunca vi alguém tão incapaz de compreender que o meu amor é bem maior que tudo que existe, mas sua estupidez não lhe deixa ver, que eu te amo.

já é o segundo urubu que eu vejo da minha janela nesta semana. é impossível não os ver: são tão grandes e belos para os padrôes de pássaros urbanos que criam um vulto no canto do olho fazendo a cabeça virar na hora. talvez esse enxame de urubus seja explicado pelo aumento de churrascos nas coberturas da alta vila beatriz. mas não são churrascos familiares, não se ouvem crianças, tímidas cunhadas ou tias gritando.
talvez os urubus sempre estivessem sobrevoando esses prédios, mas esse resolveu pousar e me fitar. ou então fui eu quem o resolveu encarar. Carcará, mais coragem do que home.

13 Sep 2009 | no comments »

Não choro: meu segredo é que sou rapaz esforçado. Fico parado, calado, quieto, não corro, não choro, não converso. Massacro meu medo, mascaro minha dor. Já sei sofrer: não preciso de gente que me oriente.
Se você me pergunta: como vai?
Respondo sempre igual: tudo legal.
Mas quando você vai embora, movo meu rosto no espelho, minha alma chora: vejo o Rio de Janeiro, Berlin, Paris e principalmente São Paulo.
Comovo, não salvo, não mudo, meu sujo olho vermelho, não fico calado, não fico parado, não fico quieto, corro, choro, converso… e tudo mais jogo num verso intitulado miasma.

não me lembro quando começou essa sensação de formigamento. nem posso dizer que acordei assim um dia. fui ficando transparente aos poucos, sem escamar. mas percebi mesmo por conta do silêncio: interrompido pelo celular que toca quando é engano, telemarketing ou parente. é claro que não é possível tanta coincidência; não há tanto compromisso que justifique todos os emails sem resposta e encontros adiados. o sempre detestável otimismo indicava que, no fundo, esse é um tipo de meditação: balela! o choro de todo final de dia escancara meu estado de irrelevante. já ignorei tanta gente sem nunca ter a menor noção de como é ser desaparecido. não há susto ou comentário que me convença dos benefícios desse escroto Shavasana.

Shavasana

28 Aug 2009 | no comments »

Perder um pai é como perder um pé. Perder dois pais é como perder dois pés. Quando eu era pequeno meu pai me ensinou a andar apenas com as mãos, sem os pés (perceba que abandonei as metáforas: para assuntos profundos as metáforas parecem inapropriadas) Até hoje sou capaz de andar alguns metros de cabeça para baixo. Mas de cabeça para baixo o tempo é outro.

02 Aug 2009 | 2 comments »

a viagem daqui até Freiburg é extremamente longa. demorou muito até chegar àquele aeroporto completamente vazio, no meio do nada e entre 3 países: desembarquei na França, peguei as malas na Suíça e o ônibus na Alemanha. me sinto assim, sem um país certo, sem a minha cidade natal, sem você. e descer do ônibus com você me esperando para beijar. vi no teu rosto a cara assustada de quem não reconheceu meu corpo, quase repulsivo, a sensação de quem é abraçada por um estranho que finge intimidade.

hoje eu sinto meu corpo se acalmar no teu abraço, mesmo que proibido. Mesmo que indevido, desaconselhado pela junta de médicos e amigos que nos rodeiam, não há para mim melhor coisa do que te encontrar.

26 Jul 2009 | no comments »

esse sujeito tem uns 60 anos, mais de 100cm de barriga e insiste em tentar saber o que eu estou lendo: curiosidade mórbida. Veio me perguntar como se faz para ir para campinas, mas não quis saber minha resposta; disse ter um GPS que lhe indicava pegar a Dutra. Saco! isso que dá acordar tão cedo e encontrar os cafés recém abertos, com tipos mais carentes ainda do que eu.

gps

19 Jul 2009 | no comments »

eu amo ouvir o que vc tem a dizer. a me mostrar. chorei de felicidade ao ouvir a música, tô aprendendo também a chorar de felicidade. como pude ser tão seco tanto tempo. deixar de ser seco me deixou mais ríspido: mas isso acabará quando eu deixar de colecionar lutos.